terça-feira, 27 de março de 2012

A QUADRANTE SUL 04 AINDA RESSOA




A Quadrante Sul 04 foi objeto de análise detalhada do gaúcho radicado em Santa Catarina Alexandre Linck Vargas (imagem acima), cineasta, professor, pesquisador e colecionador que mantém o blog Quadrinhos na Sarjeta. Confira a seguir o resultado:

"Sobre a Quadrante Sul 04, vou comentar estória por estória. Gosto de frisar (como realizador, mais de cinema que de HQ, mas igualmente realizador como vocês) que o maior respeito ao nosso trabalho é o sincero comentário, crítica e atenção. Por isso vamos lá:


* ESTRANHOS INVASORES: Foi a que menos eu gostei. Trama arrastada, repleta de clichês e que pouco empolga. Entendo que a revista pisa no gênero de aventura e super-heróis, mas mesmo assim como um trabalho de gênero é fraco. Ficou com cara daquele episódio descartável do mix de uma mensal da Marvel que deixamos pro fim. Isso não chega nem a ser um problema dos personagens, pois eles renderiam muito mais. O Alfa mesmo poderia ser muito mais instigante. Afinal, como um alienígena vê o mundo? Inclusive o desenho poderia explorar o claro-escuro na profundidade de campo, em subjetivas, etc, pra mostrar o quanto o sol é um fator decisivo pra afirmação ou perda de força da entidade alienígena. Já o final força uma revelação de conspiração que como a estória pregressa pouco fisgou um desejo de descoberta ou estabeleceu esse conflito, nada diz de interessante.

* BAR: Essa foi a que mais gostei. Justamente por ser curta. Personagens tão estanques em evolução como o elenco da Quadrante funcionam melhor em situações rápidas, onde uma ação fecha outra. Não que não dê pra fazer estórias longas com personagens do tipo, mas aí exige um domínio de progressão narrativa em viradas de ação por ação que "Estranhos Invasores" não teve - esta inclusive se pauta em uma só ação e arrasta virando pouco o pólo dramático.

* ACEITA UMA BEBIDA?: Taí uma estória que ficou legal mas poderia ter ficado do caramba. Atrapalham alguns enquadramentos que confundem um pouco a situação e a falta de esclarecimento sobre a intensidade dramática dos dois personagens gêmeos. Não que uma estória precise ser clara, mas a confusão chega cedo demais, num momento onde ainda não estamos ligados à estória a ponto de querer realmente saber o que acontece e iniciar nossa própria investigação.


* MARTIM PESCADOR: Assim como "Bar", apesar de não trazer nenhuma novidade ela funciona melhor porque é mais curta e encerra uma ação. Os enquadramentos ajudam bastante, a narrativa funciona e é fluida. Ainda assim traz pouquíssimas surpresas. É um tanto previsível.


Enfim, no geral acho bacana acima de tudo o gesto persistente de fazer quadrinhos. Porém, da mesma forma, penso se é preciso, mesmo ainda lidando com Aventura e Super-Heróis, se restringir a clichês narrativos que muito lembram as HQs do final dos 1980 e início dos 90.


No mais, desejo um bom trabalho pra vocês na quinta edição. No que precisarem de mim, estou à disposição.


Abraços, Alexandre."

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

UM REGISTRO TARDIO: VEJA COMO FORAM O LANÇAMENTO DO FANZINE TCHÊ 39 E O PRÉ-LANÇAMENTO DO FANZINE PROFECIA 29

Alvorada, município gaúcho adjacente à capital Porto Alegre, foi palco, no dia 13 de novembro de 2011, de um evento que, se não abalou as estruturas da cidade, tampouco teve algum efeito na estrutura da casa do anfitrião Denilson Reis.

O lançamento do número 39 do fanzine Tchê acompanhado do pré-lançamento do fanzine Profecia 29 foi alardeado na mídia especializada como um acontecimento de duplo impacto. Pessoas mais atentas (duas, segundo nossa contagem) identificaram a sutil homenagem ao filme homônimo de Jean-Claude Van Damme realizado em 1991, da fase áurea do ator(?), quando ele participava de produções baratas com roteiros simples e cativantes.

Personagens principais do encontro:
- Denilson Reis;
- Rosi Reis, a senhora "Tchê";
- Henrique e Fernanda, herdeiros da Tchê Productions;
- Jerry Adriani Souza, editor profético às voltas com a crise na Europa;
- Carine e Felipe, esposa e filho do editor profético;
- Alex Doeppre, trabalhador braçal por acaso;
- Anderson "ANDF" Ferreira, o coelho que sai da cartola do mágico Dudu;
- Marcelo Tomazi (M.), grande intelecto de nosso tempo.

ANDF foi o primeiro a chegar ao local, seguido de Alex. Procedeu-se à entrega de recortes de jornais que o Denilson não lê.

Marcelo (M.) e Jerry chegaram juntos. Fato curioso é que Jerry não estava conseguindo localizar o endereço do Denilson, porém, graças a uma coincidência cósmica causada pelo alinhamento da Terra com algum planeta, ele e M. chegaram ao centro de Alvorada na mesma hora e local. Interceptando M., Jerry o persuadiu a fornecer as indicações para chegar à casa do Denilson.
Com todos presentes, teve início a exibição comentada de todos os slideshows oficiais (e alguns extra-oficiais) das reuniões realizadas pelo Grupo Quadrante Sul.

Lamentavelmente, ANDF saiu às pressas por volta das 16 horas. Deu a desculpa que precisava auxiliar o Doutor Estranho em um caso, mas sabemos que, na verdade, foi atender ao chamado do mágico Dudu.

Após sessão de fotos para a posteridade, foi promovido intervalo gastronômico com um lauto lanche com bolo de chocolate, salgados e refrigerantes.

Procedeu-se à gravação dos vídeos no escritório do Denilson. A intenção foi fazer uma gravação com mais objetividade ao invés de simplesmente mostrar pessoas abanando pra câmera. Todos demonstraram desenvoltura diante da câmera, exceto o sonolento Alex. M. tirou várias fotos de ângulos estranhos.

Jerry e família despediram-se, levando M. com eles. Esqueceram o casaquinho do bebê.
Alex ficou mais algum tempo, passando para Denilson dicas de Corel Draw, tais como não usar letras brancas sobre fundo branco.

Clique nas imagens abaixo para assistir ao slideshow do evento e aos depoimentos dos participantes sobre as publicações lançadas e outros projetos em andamento.







Confira também
no blog Visão ANDF as partes 1 e 2 do relato de Anderson Ferreira sobre o encontro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

HISTÓRIA SECRETA DA QUADRANTE SUL - PARTE 2

Por Marcelo Tomazi



Quando um grupo de heróis se reúne frente a um grande inimigo, baixas acontecerão.



Tudo começa por uma ideia, dirão os mais objetivos e práticos. Pois a ideia de publicar uma revista de quadrinhos era uma certeza, em meados da primeira década do novo século (aos que não estão entendendo do que estamos falando, leiam primeiro História Secreta da Quadrante SulParte I). As reuniões do Grupo Quadrante Sul, frequentes a partir de 2007/2008, serviram de pretexto para que os interessados pudessem discutir e alinhavar propostas. O ponto de partida era conhecido: a revista Quadrante Sul voltaria a ser publicadaregularmenteseguindo sua numeração original e mantendo o perfil de conteúdo que a consagrou nos ano 80 no mercado alternativo de quadrinhos e fanzines. Mas os que pensam que boas intenções bastam e que todo o restante são flores, aviso que a jornada foi demasiado longa, complexa e repleta de dificuldades.


Porém
estar decidido (ou ser teimoso, depende do ponto de vista) é fundamental e essa força os editoresAlex Doeppre, Daniel HDR, Denilson Reis, Gervásio Santana e Marcelo Tomazitinham de sobra. O que nos levou à inevitável pergunta: como pagar por nossosonho? É fato que publicar quadrinhos nos dias de hoje é infinitamente mais barato que nos anos 80, quando a Quadrante original foi lançada. Naquele tempo era preciso diagramar à mão (recortar e colar, para os que não entenderam), produzir fotolitos (alguns nem sabem mais o que é isso) e recorrer a gráficas. Hoje você monta a revista no Corel ou InDesign, exporta PDFs e leva a qualquer gráfica expressa. Do seu pendrive direto para a máquina de impressão. Ainda assim, não sai de graça. Como discutir dinheiro (sobretudo como gastá-lo) é extremamente cansativo e estressante, veio a luz ao final do túnel: Alex Doeppre, nosso co-editor (naquele momento eleito Editor-Chefe, com honras), ofereceu gentilmente parte do que acabara de ganhar como Fundo de Garantia, ao sair dos Correios, para os custos da revista. Eis que a mágica estava pronta para iniciar.



Tínhamos o projeto e agora o dinheiro. Mas logicamente o principal ainda estava faltando: o conteúdo. Mais uma vez as reuniões foram a base para convocar pessoas e distribuir tarefas. Precisávamos de HQs. Inéditas. A principal, Caçador & Alfa, um projeto meu dos anos 80 que trouxe das cinzas da minha gaveta de ideias, era um grande problema, pois tinha 15 páginas. Quem desenharia 15 páginas? Vamos esclarecer um ponto importante: sem remuneração. Pois o dinheiro que arrecadáramos era suficiente apenas para a impressão da revista, não para pagar colaboradores. O que decidimos, na época (e ainda hoje é uma boa solução), foi dividir a HQ em partes, capítulos, e assim cada desenhista poderia fazerapenastrês páginas. O co-editor Daniel HDR ofereceu a farta mão-de-obra de seu estúdio, o Dinamo, para o desenho da HQ. Com o roteiro entregue, 15 páginas estavam, simultaneamente, em andamento. Três foram desenhadas por Carlos Lima, da Paraíba. Assim a principal HQ (ao menos em tamanho) pôde ser realizada. Não vamos discutir agora os problemas de se fazer uma HQ com tantos desenhistas envolvidos, isso fica para outros arquivos ou memórias. Para as demais HQs da revista: Denilson Reis conseguiu que seu colaborador frequente, ninguém menos que Júlio Shimamoto, desenhasse uma história de seu personagem, Bruce, o Exterminador; para a HQ do Eliminadoroutro personagem de Denilson!, Fabiano Höltz cuidou do roteiro e Marcel de Souza e Alex Doeppre, da arte (Fabiano e Marcel, por exemplo, era parceiros das reuniões Quadrante); por fim, O Aproveitador, personagem de Gervásio Santana, teve roteiro dele mesmo e arte de Juliano Machado e Alex Doeppre. Assim o conteúdo estava em produção acelerada...



Editar uma revista pode parecer fácil, mas não é. Todos os problemas que qualquer editora tem, a Quadrante teve: atrasos na produção das HQs, artes refeitas e/ou substituídas, decisões de última hora, etc. Mas cabe fazer um registro importante: Alex Doeppre foi incansável na produção da revista. Não colaborou com o mais importante, os recursos, como arte-finalizou HQs, co-roteirizou (a HQ do Bruce) e, acreditem, diagramou todo o trabalho. Contamos, também, com o competente letreiramento de Diego Müller, a capa de Matias Streb, uma ilustração de Jader Corrêa e a contracapa de Laudo Ferreira Júnior e Omar Viñole.



Assim, ao longo de 2009, a Quadrante Sul 4 estava sendo concluída. Em novembro houve o primeiro lançamento, seguido de outros, também no ano de 2010. Um longo e, em parte, tumultuado caminho. Mas que ilustra as dificuldades que qualquer editor ou editora poderá enfrentar: recursos, colaboradores, prazos, etc. Foi uma vitória para todos, especialmente para os editores, que empenharam seu tempo e recursos para que o sonho pudesse se tornar realidade.



Lançada a Quadrante Sul #4, foram feitos os primeiros balanços e, claro, projeções. A revista deveria continuar? Todos concordaram, porém, como é comum em quase todo tipo de atividade coletiva, alguns colaboradores não puderam continuar: Gervásio Santana decidiu dedicar seu tempo e recursos ao novo empreendimento que lançara, a comix shop TexBR, bem como à revista em quadrinhos de mesmo nome; e Daniel HDR, hoje desenhista da poderosa DC Comics, resolveu que não poderia abraçar o mundo, que mantinha um estúdio de produção, o Dinamo, dava aulas de quadrinhos e era professor universitário. Assim os três editores remanescentes, Alex, Denilson e Marcelo, continuaram com o projeto, buscando novos colaboradores e, por que não, co-editores. Em 2010 juntou-se ao projeto Jerônimo Fagundes de Souza, editor da Hangar. Mas isso é assunto para outro capítulo da História Secreta...



Marcelo Tomazi é designer, artista visual, Mestre em História da Arte e professor universitário (Universidade de Caxias do Sul). Clique na imagem para acessar seu blog.